terça-feira, dezembro 12, 2006

A essência dos gostos

Sempre me preocupei demais com aquelas brincadeiras de infância e adolescência em que as crianças exigiam uma coerência por parte dos seus coleguinhas ou amiguinhos quanto aos seus gostos. Ou seja, se alguém diz que gosta de algo, principalmente alguma banda, grupo, artistas, então essa pessoa tem que saber absolutamente tudo sobre isso! Tem que ser um fã fanático, conhecer os albuns, CDs, discos, ter lido a bibliografia, saber tudo que se passa com o objeto do gosto. Viver em função dele. E obviamente censurar todos aqueles que dizem gostar, mas não sabem todo o esforço, sofrimento que é gostar "realmente" de algo! Se alguém diz que gosta, mas só ouviu 10 música, ou menos que isso. E ainda assim só ouviu os hits mais pops, pronto! Essa pessoa não é digna de dizer que gosta! Quem é ela para afirmar uma tal coisa? O gosto dela não é autêntico, genuíno, ela só gosta por moda! Eu, ao contrário (muito ao contrário!), gosto porque ... Por que mesmo? Humm... Tá bom, gosto porque gosto e sei lá porque motivo comecei a gostar, só sei que gosto e agora sou coerente com o meu gosto. Obviamente que o gosto só é considerado como válido se ele não nascer por motivos de: 1) influências, 2) modismos, etc. Tem que ser algo quase divino. Mais importante ainda é ter como provar isso, pode ser contando a história do primeiro contato com o objeto do gosto (e do gozo).

Incrível que isso não é apenas uma brincadeira, é quase uma doença. Vive-se pedindo coerência dos gostos que se tem. Se alguém gosta de leitura e não lê muito, acha-se estranho que isso ocorra. Se alguém diz gostar de música, mas não procura sempre se informar mais sobre isso, aprofundar-se no gosto, então vem a questão: mas gosta mesmo? Engraçado que os adolescentes mesmo não procuram levar até as últimas conseqüências esse tipo de exigência. Mas então por que fazem isso? Que querem com essa estrutura de raciocínio?

Vejo pessoas tão obstinadas por assistirem aulas em cursos universitários: "eu não posso perder a aula, onde é a sala, qual é o texto???". A pessoa não lê o que se pede, não estuda conforme o exigido, mas não quer largar o curso. Quer ir até o fim. Mas, então, será que gosta mesmo? O que faz com que uma pessoa insista por entrar num curso universitário às vezes por duas, três, quatro vezes, e quando entre ainda assim não se dedique, não leia, seja extremamente desleixado com os estudos, não procure ler por conta própria para entender melhor os assuntos, ou mesmo só pelo prazer que a leitura propicia. Afinal, será que gosta mesmo? Faz sentido essa pergunta? Até que ponto ela faz sentido e até que ponto não faz? Um professor certa vez me disse que não faz sentido ficar pedindo uma coerência absurda em relação aquilo que se gosta, também não faz sentido dizer que se gosta de algo, mas passar o tempo inteiro sofrendo e não ter nenhum prazer com aquilo. E prazer, não digo, de retorno posterior, mas sim de prazer por estar fazendo aquilo, por estar gostando de fazer aquele tipo de coisa. Obviamente que outros prazeres daí advêm: prazer de conseguir um emprego devido ao curso, prazer por se sentir mais inteligente em relação aos conhecimentos que se tinha anteriormente, etc. Então nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Ok, mais um clichê que não explica porra nenhuma.

Então como ficamos? Como funciona isso?

Devemos arriscar, então. Mas precisamos ao menos saber minimamente do que gostamos e investir nisso? Talvez a questão seja que não se precisa ter uma coerência forte em relação aos gostos, uma disciplina absurda em relação a isso, mas certa disciplina é preciso ter. E não sei se gostar minimamente ajuda, porque se gosta minimamente de um milhão de coisas. Então se poderia fazer tudo? Se poderia arriscar, sim. Ir tentando. Fazendo o que é possível fazer. Mas certas estruturas mentais parecem estar montadas em pessoas doentes como eu que querem a todo momento o mais profundo, o mais sério, o mais rigoroso. Não agüento isso. Nunca vou agüentar e não sei se um dia aprenderei a lidar com isso.

segunda-feira, abril 04, 2005

Até quando se é preguiçoso?

Até quando se é preguiçoso?

Uma coisa que anda me incomodando um pouco e esse problema de saber até quando se é preguiçoso mesmo e até quando o meio em que você está deveria te fornecer as condições adequadas para que você consiga fazer as coisas, consiga se motivar. Porque é muito fácil por toda a culpa nos sujeitos e dizer que eles são livres e autonomos para realizar as tarefas que lhes são dadas. Seria bom que todos desenvolvessem uma autonomia a ponto de depender o mínimo das condições externas e mais de si mesmo. Porém autonomia se desenvolve, não se nasce com ela. É necessário de motivação, é necessário de condições favoráveis pra isso.

Uma pessoa que passa fome, não tem trabalho, não tem como adquirir as coisas tem o direito de não se motivar pra viver. O meio não dá condições adequadas do ser humano buscar seus próprios interesses, dele ser livre. O cara fica ali jogado numa situação de miséria e as pessoas dizendo que ele é preguiçoso, e ainda ficam batendo palma se um ou dois conseguem superar as "adversidades" e chegam a sair daquela situação, ou seja, fazem ele se sentir pior ainda, porque imprimem nele o predicado de preguiçoso, já que outros conseguem, por que ele também não? É engraçado isso, porque nessas horas todos são iguais, mas o discurso politicamente correto sempre diz que todos são diferentes, todos têm seu tempo próprio, sua motivação própria, etc; claro que o exagero desse argumento leva a um problema social caótico, porém não levar nem um pouquinho isso em consideração também leva a uma situação absurda em que as pessoas se sentem horríveis por serem tachadas de vadias, por não terem ânimo de tirar vontade sei lá de onde para superar as "adversidades". Saciadas as condições materiais (que são o mínimo, pois um ser humano sem lazer, sem prazer, poderá não se motivar, e aí culparemos ele? Entendo que delimitar esse mínimo é difícil, mas deveríamos) é mais fácil esperar que as pessoas sejam mais autonomas, mas ainda assim pode ser difícil.

Pra ler e estudar também, até que ponto é responsabilidade dos professores tornar aquilo que os alunos aprendem mais palpável, mais simples de se entender, mais motivador e até que ponto é dever do aluno se motivar, correr atrás, se interessar? É mais fácil sempre jogar a culpa pras instituições que são pagas pra formar os sujeitos, e para se desenvolver essa tal de autonomia as instituições, como são maiores, mais complexas, detentoras de técnicas e de conhecimentos, elas deveriam ser mais responsáveis por isso. Senão não faz sentido professores ganharem 4 mil reais pra cima, não faz sentido bolsas de iniciação científica em que o aluno tem que se virar sozinho, ou trabalhos de conclusão de curso em que o aluno tem que aprender tudo sozinho e por aí vai.

É muito fácil dizer que as pessoas têm que se adaptar, que tudo é uma merda mesmo e se ficarmos aí reclamando nunca iremos pra frente. O argumento do mérito é muito problemático. Eu acho que os alunos têm o dever de ler aquilo que os professores lhes passam, têm o dever de frequentar as aulas, de pensar sobre as coisas que estão aprendendo, porém os professores têm o dever de adquirir uma certa sensibilidade com relação às turmas a ponto e saber se eles estão aprendendo ou não e quais os motivos disso, e quais as maneiras de se solucionar os problemas buscando diálogo. Isso é algo meio simples de se dizer, porém nunca é feito nas aulas.

Da mesma forma as pessoas que vivem em situação de pobreza. É apenas exigido delas que tenham vontade de trabalhar com qualquer coisa, catando lixo, papelão, latinhas, capinando terrenos enormes em troca de umas merrecas, etc. Meu deus, haja motivação para viver uma vida assim, haja Deuses. Exigem demais e possibilitam de menos. E a sociedade não quer saber se a política possibilita ou não, julga como vagabundos que não se adaptaram e cobra deles, exige deles baseando-se nos exemplos de pessoas que conseguiram. É quase uma obrigação moral alguém que se encontra em situação de miséria que seja um super homem, quem sabe depois façam um documentário sobre ele fazendo o resto dos que viviam com essa pessoa se sentirem mal por não serem como ele. Deveriam fazer mais documentários mostrando que a maioria não é assim.

Outro exemplo desse problema da autonomia vs preguiça é essa "doença" atual chamada Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade que é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Então como saber até que ponto uma criança/adolescente não quer mesmo aprender, e até que ponto tem esse "problema" que o impossibilita de aprender "Normalmente"? O critério é a ciência quem dará, o parecer dizendo que a pessoa não é malandra virá das maõs de um neurologista. Mas às vezes as fronteiras são muito tênues e aí fica difícil de se determinar se a criança/adoelscente/jovem não aprende por preguiça ou porque é hiperativo mesmo e não consegue se concentrar. Nos USA o remédio chamado de ritalina, "acalma leão", está fazendo sucesso, já que ninguém pode ser visto como preguiçoso, malandro. Enfia remédio goela a baixo, cura todo mundo e põe toda a massa a produzir. A corresponder ao modelo de homem produtivo, motivado, drogado, dopado, etc.

Penso que talvez fosse bom que se exigisse tudo na mesma medida. É exigido que os indivíduos trabalhem, adquiram coisas, estejam sempre motivados, mas em contra-partida deveria ser possível se exigir das agências que possibilitam as coisas que elas fizessem seu papel, cumprissem suas obrigações. Exigir só de um lado não! "Ah isso é sonho, idealismo, quem ficar nessa vai se fuder". Meu deus se isso já se tornou senso-comum então só nos resta esperar o pior.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Modelo de vida vs VIDA!

Modelos de vida vs vida
Não faz sentido falar em vida sem falar de modelos de como se viver, a vida em si, por ela própria parece não significar nada, a vida não é nada independente dos modelos de vida, mas então se existem modelos de vida, será que há algo por trás desses modelos, algo embaixo quem sabe? Ou seriam esses modelos a própria vida mesma, e só o que existiria seria mesmo modelos de vida. Mas de onde vem esses modelos? Quem cria isso? Isso será que é planejado? Detesto essas histórias de teoria da conspiração, sociedade secreta e afins, então se não for isso por ser apenas algo não planejado, o puro acaso em que se fixam certos objetivos e a partir desses tudo se deriva até a sociedade, a vida dos homens, a conviência familiar, até mesmo na própria imagem que o homem faz de si mesmo. Quem estabelece esses objetivos? As grandes corporações malvadas? Mas e antes quando elas não existiam? As coisas vão ocorrendo por acaso e as teorias vão correndo atrás. O capitalismo não é um modelo teórico malvado que foi implantado, mas sim apenas uma mudança das relações de troca. Não quero falar do capitalismo porque dele nada sei, nada entendo.
Falarei apenas da questão dos modelos de vida, alguns objetivos pra nossa vida estão dados, pois vivemos em sociedade, vivemos todos amarrados uns nos outros, devemos trabalhar, devemos arranjar um emprego logo para podermos comer, pois ninguém quer nos sustentar sem trabalharmos, que pena. Então a verdade fundamental de nossas vidas que não podemos escolher é: temos que trabalhar. Ao definir esse objetivo muita coisa se esclarece na nossa vida, diz como nós devemos viver, ser, pensar para que alcancemos esse objetivo: o trabalho; para que possamos comer, sobreviver. Para isso os pais na infância educam seus filhos, para o trabalho, para independência econômica, para o auto-sustento, vivemos pra isso. E aí temos que conciliar isso com o que gostamos, o que já causa um problema.
Como conciliaremos isso? Somos perdidos, não sabemos do que gostamos ou queremos, alguns ainda sabem do que não gostam, ou o que não querem, mas daí até dizer o que gosta e quer, é difícil, eu não consigo, acho. E o que é comum se fazer? Escolher logo algo que dê mais dinheiro, algo que dê status, vida boa, algo que dê dinheiro para que possamos usufruir de prazeres gostosos. Então vendemos nossa individualidade para o curso que for, trabalho que for em nome desse prazer que virá depois, todo final do mês, todo final do ano, ou, até ao final do 30 anos de trabalho.
Se não tivéssemos que trabalhar como educariamos nossas crianças? A educação hoje em dia é preparação para o trabalho, só isso, já virou clichê dizer isso. Acho que nem isso, pois preparar pra qual trabalho? Gari, office boy, prostituta, empresário, jogador de futebol? O que significa isso 'preparar para o trabalho'? Dar o mínimo de saberes práticos e não tão práticos assim para jovens executarem atividades em empresas ou seja lá no que for.
Não quero falar de nada disso, só quero discutir a questão dos modelos. Pra uma sociedade onde todos precisamos trabalhar existe um modelo padrão de homem, marido, pai, mulher, criança, estudante bem sucedido, etc. Numa sociedade massificada existem padrões de prazer, entretenimento, gostos... Para atingir esses modelos que alcançarão melhor o objetivo da vida humana (trabalhar) são precisos anos de disciplina, interiorização de regras sociais, padrões de comportamento, de auto-estima, tudo visando o trabalhar. Vamos ao psicológo reclamar que nos sentimos tristes por não corresponder ao modelo de homem e então esse profissional dignostica: baixa auto-estima; dado o problema podemos trabalhar com ele, corrigido o defeito o robô volta ao trabalho. Mas isso é um problema da própria pessoa? Da pessoa ou da convivência entre os homens, da própria sociedade então? Dados os critérios do que é ser um bom homem, do que é ser um homem adequado, medimos e avaliamos aqueles que correspondem ou não a esses padrões. Mas esses modelos não são a vida humana, temos que nos domar, nos adaptar, tornarmo-nos robôs para poder suportar isso, disciplinar rigorosas, quem foi educado desde casa para um regime assim tem maiores chances de triunfar, do contrário sofrerá, terá baixa auto-estima, levará rótulos de perdido, enrolão, vagabundo...
A partir dessa constatação podemos sentir-nos mais aliviados pensando que não somos nós que somos doentes por não corresponder a esse modelo medíocre, modelo estúpido, reducionista da vida humana, devemos pensar que o modelo deveria se encaixar ao que somos de fato, mas o que somos de fato? Somos preguiçosos, malandros, perdidos, totalmente passionais, não sabemos o que queremos, nem pra onde iremos; se os filósofos não se prestam pra dizer o que é o homem, o sistema de produção ao qual estão embrincados desde que nascemos nos dirá o que é o homem: um ser para o trabalho. Prefiro acho que lutar por uma definição do que seja o homem que se oponha a esse modelo de homem que temos aí, para que possamos ser livres e nos desenvolver como quisermos sem ninguém apitar sobre isso. Mas não permitem, dizem: sejas útil! trabalhes! Mas não quero ser útil a ninguém, nem trabalhar! Não podes, não te sustentaremos! Mas não pedi para me sustentarem, porra! Já nasci nesta bosta! Deixe eu me sustentar e buscar o que acho que me interessa sem ter que dever nada a ninguém! Por que me exigem isso?
Esse texto está uma bosta, por favor comentem algo interessante para me fazer pensar, eu só queria postar algo, e isso me incomoda.

quinta-feira, julho 22, 2004

Ciência x Religião: o debate sobre os valores

Ciência x Religião: o debate sobre os valores

Atualmente se quer acabar com a religião tendo em vista uma vida mais livre, mais crítica, menos 'moralista', menos dogmática, menos calcada em princípios de fé e mais de acordo com o discurso científico. O problema é que a ciência não gera valores morais, valores cognitivos tudo bem, mas a ciência não tem nada a dizer sobre o tipo de vida ideal que se deve ter. Como devemos nos relacionar com as pessoas? Será que a resposta para esse tipo de questão pode ser encontrada num manual de biologia, física, química? Parece claro que não. A ciência está preocupada em explicar, prever, auto-questionar-se, não está preocupada em fundamentar um princípio como por exemplo: 'devemos amar o próximo como a nós mesmos' ou então a regra de ouro: 'só faça ao outro aquilo que você gostaria que fosse feito a si próprio', não querendo entrar na validade desse tipo de afirmação ética, só quero mostrar que a ciência não se relaciona com isso.
É estranho quando chamamos um profissional da biologia para falar de sexualidade, ou então um médico, ou profissional de áreas da saúde (técnicas ou científicas), porque a sexualidade nada tem a ver com o discurso biológico. Ficar sabendo que se pode pegar doenças sexualmente transmissíveis por fazer tal ou tal coisa (sexo anal, oral, ou sei lá o quê), saber sobre os métodos contra-aceptivos, o que isso tem a ver com a sexualidade? Com a maneira que as pessoas pensam o outro, com a maneira que as pessoas pensam o outro e a si mesmas no ato sexual, qual a significação do ato sexual para as pessoas, como deveríamos fazer sexo de uma maneira que nos tornasse mais felizes, mais realizados - esse tipo de objetivo uma ciência nunca teria como explicar. A ciência diz: se você fizer tal coisa, previna-se, pois poderás pegar uma doença; mas a ciência não está preocupada com o tipo de sexo que vá se fazer, ou que sentido que se poderá ou deverá dar para esse gesto. A proposição passa a ser a seguinte: 'o sexo gera prazer, se você prevenir-se, poderá desfrutar sem problemas desse prazer", só isso.
A religião entra aí para dar um significado para além do animal, porque considera o ser humano algo que não somente relações de estímulos biológicos primários. As religiões querem um ser humano mais pleno, filho de deus. Como atualmente a maioria das pessoas não está com paciência pra isso, nem ligam mais pra esse tipo de discurso. Um discurso que tente dar outro sentido que não o prazer primário que as pessoas têm no sexo é um discurso considerado moralizante, ofensivo, retrógrado. O problema é que muitas pessoas também não querem ser tratadas como objetos de prazer 'apenas', querem ser algo a mais, querem dar para certas relações humanas um sentido 'maior', que as faça felizes, as realize. Esse âmbito é o das religiões, das éticas, o âmbito do sentido.
Já vimos então que os valores morais não podem ser deduzidos das ciências, nem naturais, nem humanas. A menos que alguém creia que existe um tipo de sexualidade ideal que a psicologia, a biologia, antropologia, podem pregar. Ser religioso é motivo de chacota pra grande parte das pessoas, parece um momento atrasado da história humana, uma época mitológica em que o dogma valia mais do que a razão. Esse tipo de afirmação crê que haja um progresso na história, que a razão seja algo absoluto, um valor que se imponha para além da história (haja fé nessa razão hein), da vontade dos povos, de qualquer coisa humana. Essa razão parece uma coisa voadora que está por aí fundamentada em si mesma por todos os tempos - não quero me ater a isso.
Por que não devemos matar as pessoas, ou porque não devemos mentir, porque não devemos fazer o mal às pessoas, o que é que fundamenta esse tipo de afirmação? É necessário uma explicação desses princípios para que eles façam sentido, para que possamos sentir a partir deles. Esse tipo de verdade orienta nossa vida quotidiana e nada tem a ver com a ciência. Grande parte das pessoas nem se preocupa em fundar bem esses princípios. A economia, o modo de vida, parece que impõe um tipo de moral que devemos viver. "O que devemos fazer para ser bem sucedidos na vida, felizes, alegres?" quando surge esse tipo de pergunta, ao invés de vir um padre dizer uma passagem bíblica, vem um motivador, guru da auto-ajuda e dita a verdade de acordo com o tal sucesso que ele alcançou (sucesso aqui entendido como conseguir obter grande quantidade de bens de consumo, dinheiro e por conseguinte maior felicidade, liberdade, justiça...), poderia dizer: 'mostre interesse nas pessoas com quem você fala, pois isso te garantirá frente a essa pessoa maior confinça, grau de amizade'. A sociedade que não queria ser religiosa para não ser atrasada, toma esses princípios como dogmas de fé com o mesmo objetivo religioso - dar sentido. Deus na moral atual é algo que serve para relaxar, sentir-se em paz consigo mesmo, e se produzir mais, mais eficientemente.
Não quero discutir deus, nem os gurus de auto-ajuda, nem as religiões. Quero apenas que fique claro que a ciência não diz o que é bom, mau, ou como se deve viver. Apesar de que as pessoas frequentemente apelam para o discurso científico para explicar as relações humanas. Isso é negar totalmente a liberdade humana, pois se se pretende dizer como deve-se viver a partir de uma explicação científica do mundo, o que a ciência disser que é a verdade nos tempos atuais, será aquilo que devemos viver na vida quotidiana. Mas como vamos derivar princípios éticos da física, química, biologia? Se na física tudo é relativo, nas relações humanas também, essa é a verdade que nos fará felizes? haha. Se evoluímos de um jeito e não de outro e somos constituídos de tais e tais substância, logo o quê? O que faremos? E que ciência deveríamos apoiar nossos juízos morais? Como vamos fazer isso, alguém me explica? E se um princípio da mecânica quântica for contraditório com um princípio da química, a qual daremos maior valor na hora de formular um princípio ético? Tá, chega de piadas.
A maioria das pessoas está contente por abandonar as religiões, por sentir que estamos progredindo, só que essa crença, já pressupõe algo que não é científico, por exemplo, que a vida tenha um fim maior, que a ciência vá dizer um dia a verdade total sobre o mundo, que a história seja um suceder de progressos humanos; esses princípios são de uma fé secular, quem quer ser somente racional não poderia ater-se a isso. E com que comprovação poderíamos talvez dizer que as verdades da física, química, biologia, poderiam valer para a vida dos homens? Isso poderia ser racionalmente demonstrável? Provavelmente não. É engraçado em certas palestras de 'intelectuais', quando querem mostrar conhecimento, eles apelam para verdades da ciência (de uma das ciências).
A vantagem de quem é religioso é que ao crer numa verdade religiosa se tem princípios claramente deduzidos dos livros sagrados, das práticas dos fundadores, da fé. Isso é algo que nenhuma ciência poderá dar. O que na contemporaneidade se tenta fazer é formular princípios éticos não religiosos de convivência entre os homens. Princípios que sejam válidos para quem seja ou não religioso e que se fundem em valores aceitos socialmente pela grande maioria: de que a vida é um valor, de que todos são iguais, de que ninguém deve passar fome, de que ninguém deve impor algo a outrem... e por aí vai. Mas isso não significa progredir, creio eu, é só uma maneira diferente de formular princípios.

sábado, julho 03, 2004

Filosofia e Ação

Filosofia e agir no mundo, possível?
a critica dos fundamentos parece descabida

Uma coisa que me preocupa profundamente é quando se começa a discursar a partir de verdades pré prontas, parece que já sabemos o que é certo e o que é errado e que então nos bastaria viver esse certo e esse errado para sermos felizes. Esse discurso me faz mal, porque eu não sei mais o que é certo, errado, felicidade, sentido pra vida, etc. Essas questões são pressupostas no nosso dia a dia: 'como devo me relacionar com as pessoas, como devo me posicionar sobre tal ou qual questão política, como devo pensar esse tipo de técnica que mata milhões mas que ao mesmo tempo possibilita todo luxo e conforto de nossa sociedade, como devo viver, o que devo consumir, que sentido dar pra minha vida, ou ela não precisa de um sentido?' Quer dizer, essas respostas são todas claras no nosso quotidiano, na nossa maneira de sentir e viver, porque mesmo que nunca elaboremos uma teoria sobre cada uma dessas coisas, nossos corpos já foram acostumados a sentir a partir de verdades que são dadas desde a infância (e aí podemos colocar em xeque a idéia de autonomia).

Bom, mas o meu ponto é: a filosofia trata de questionar o óbvio, os fundamentos, porém às vezes parece, diante do mundo que nós vemos, algo tão superfulo, bobo, ofensivo até, diante da realidade que nos é apresentada. Vou dar uma exemplo para ser mais claro: Semana passada fui numa palestra entitulada: 'apologia ao ócio como crítica da sociedade do trabalho', não quero aqui discutir essa tese, apenas um ponto. Quando o palestrante dizia: 'do ponto de vista do sentido pra vida, do prazer intrinseco a natureza humana (esse tipo de terminologia é caríssimo a filosofia, pois versa sobre fundamentos últimos) hoje se trabalha muito, se tem menos tempo, se aproveita menos a vida, fomos educados a trabalhar, se na antiguidade trabalhava-se para a subsistência, para depois se desfrutar a vida da maneira como bem aprouvesse a cada um, hoje trabalhamos muito, aprendemos a trabalhar e já não temos mais tantas possibilidades assim de desfrutar a vida'.

Na antiguidade trabalhava-se muito pouco, inclusive entre os gregos e romanos o trabalho era mal visto, feito somente por escravos, por isso a filosofia é tida hoje (para nós trabalhadores) como a arte dos vagabundos. Porque a filosofia era possível a partir do ócio dos homens livres. Na idade média se trabalha cerca de quatro horas, na renascença que a questão do trabalho começa a ficar problemática a partir do surgimento do protestantismo (sobre isso leia-se Max Weber - A Ética protestante e o espírito do capitalismo) que procurava ser um cristianismo mais puro, reinterpretando o Gênesis, principalmente a passagem que diz que agora que Adão e Eva comeram o fruto proibido teriam que viver com o fruto do seu suor e trabalho. Quer dizer, enquanto o cristianismo medieval era mais contemplativo, a renascença dá um jeito de por os homens pra trabalhar, mas não muito. Na Inglaterra antes da revolução industrial se trabalhava terça, quarta, quinta, e se folgava sexta, sábado, domingo e segunda feira (se não me falha a memória - qualquer informação mais precisa é bem vindo, ou ator que descorde). Então a vida era até tranquila, porém com o surgimento da maquinaria, a idéia da produção, o surgimento do capitalismo, o fim das relações por consaguinidade e o nivelamento pelo dinheiro das pessoas: Quer dizer, antigamente se tinha uma natureza humana: nobre, plebéia, burguesa, clerical; todos tinham seus papéis definidos, porém a partir da revolução francesa esse tipo de determinação começa a ser questionada, há maior mobilidade na escala social (por exemplo um burguês pode chegar a ser admirado porque tem dinheiro - idéia absurda até a época). Com a revolução industrial, então, vemos que os seres humanos aprendem a trabalhar, jornadas longas de trabalho, perda de sentido das ações por serem mecânicas, sentimento de angústia, época negra na Europa, o ser humano deixou sua espontaneidade natural de lado em nome do querer de alguns, não faz mais o que gosta, faz mais o que os outros querem que ele faça, do que o querer dele propriamente seja respeitado. Claro que toda sociedade, para ser sociedade necessita que os individuos mantenham um certo equilibrio entre vontade individual e social, porém quando qualquer desses pontos é suprimido, ocorrem problemas (isso é uma verdade metafísica - ou seja, que valha para sempre em todas as épocas?).

Não quero me perder no texto não (não quero aqui discutir a tese do trabalho, só fiz um resumo da palestra), quero somente dizer que, desse ponto de vista que estou colocando as coisas, o trabalho precisa necessariamente ser revisto, como somos democratas atualmente deveriamos convocar assembléias para se ver isso, para não vivermos numa oligarquia mascarada de democracia. Pela argumentação acima apresentada eu me convenço de que as relações de trabalho no sistema capitalista tornaram-se extremamente problemáticas, com um trabalho em função da produção, de manter um sistema econômico e não se importando muito com a vida das pessoas, mas vejam só quantas verdades eu assumo fazendo esse tipo de comentário, verdades fundamentais: 'de que: as pessoas teriam que buscar aquilo que elas gostam de fazer mais do que outros querem que elas façam', 'de que: trabalhar pra manter um sistema economico, manter uma produção independete dos seres humanos (se é que isso é possível) é pior que trabalhar para os seres humanos', 'de que a vida humana é um valor fundamental e que deve, a medida do possível, ser prolongada, aumentada (em termos de qualidade, se é que existem padrões) e que todos devam desfrutar de prazer porém que ao mesmo tempo consigam equilibrar vontades pessoais e sociais para vivermos em harmonia' - vejam só, a filosofia problematiza justamente esse tipo de coisa!!!! É incrível! desse ponto de vista a filosofia parece absurda! Problematizar se existiria de fato uma felicidade humana? Se a vida não poderia ser isso mesmo que temos hoje aí, senão, por que não? Do jeito como estou tentando apresentar, a filosofia pareceria mais um tipo de reflexão feita por burgueses filhos da puta que querem manter tudo como está, a proposição seria a seguinte: 'como não temos em que fundamentar a natureza humana, a felicidade dos homens, o prazer intrínseco de cada ser humano, um sentido pra vida que fosse coletivo, um modelo universal de homem que todos devem alcançar, um padrão universal de qualidade de vida, então não me venham impor essas babaquices de ócio, de prazer, de felicidade e deixem tudo como está' - Wittgenstein diz: A filosofia deixa tudo como está.

Esse é o ponto que mais me toca profundamente desde que eu comecei a entender a reflexão filosófica e não sei como sair disso, quando me dei de cara com esse tipo de reflexão, senti-me desmotivado para entrar em partidos políticos, defender verdades, qualquer coisa, tornei-me cético e cada dia mais indiferente. Eu sinto muita coisa como errada, mas meu instinto filosófico me diz que isso é só produto de uma cultura, educação cristã, e que não devo agir, pois os fundamentos da ação são duvidosos e questionáveis, o que fazer então? Apresentem-me uma solução.

PS.: quem quiser ler o texto do trabalho ao qual me referi, encontra-se em: http://150.162.90.250/teses/PSOP0170.pdf

terça-feira, junho 22, 2004

Educação de novo, infelizmente

Morte aos educadores, a escola:

A situação da educação é delicada, quero começar esse texto fornecendo um dado: "Desde 1970, quando os brasileiros eram "90 milhões em ação" (ou, mais exatamente, 93.139.037, segundo o Censo daquele ano) e a seleção brasileira conseguiu o tricampeonato mundial de futebol, a população do País cresceu 82%. Ao longo do século XX, ela tornou-se quase dez vezes maior: o Censo de 1900 contou mais de 17.438.434 de residentes. Na primeira metade do século, a população triplicou (51.941.767 residentes em 1950) e, na segunda metade, mais que triplicou. Em 2000, já éramos 169.590.693 pessoas";

Teria que consultar também em quanto a arrecadação do imposto de renda cresceu, se cresceu de acordo com o crescimento populacional. De acordo com certas fontes de dados seriam 40 milhões os que tem fome no nosso país, isso equivaleria a duas vezes a população de 1900. Estou apresentanto esses dados porque antigamente, não há muito tempo, na década de 60 e 70 em que meus pais, tios, estudaram, havia um tipo de educação chamada de formal que conseguia até ser mais eficiente que a educação que vemos hoje, alguém pode defender que é porque na época haveria mais emprego, ou seja, os alunos tinha um objetivo a que visar, ou que haveria menos gente e isso torna as coisas mais fáceis, não havia tantos precipícios que separavam a educação pública da privada, era outra realidade, um pouco mais simples.

Mas não adianta, o modelo de escola é todo errado, os pedagogos só querem teorizar em cima de conceitinhos mixurucas, não sei se eles querem ser filósofos, ou o quê. Existe um problema grave emergencial com a nossa educação e eles continuam com um pedagogês (dialeto dos pedagogos) irritante e não resolvem os problemas reais. As crianças continuam não sabendo ler nem escrever, e os pedagogos continuam 'filosofando', discutindo conceitos abstratos. Aqui em Florianópolis não vemos uma escola decente de ensino (talvez escolas de pedagogia alternativa: uma ou duas), é assustador isso. Os professores formados na universidade aprendem meia dúzia de verdades e voltam para o ensino médio querendo ser profetas e reproduzem os modelos de educação para o trabalho fornecido desde a época da revolução industrial. Aliás acho que nem o educar para o trabalho eles andam fazendo.

A escola repente o modelo da indústria, acho boa essa analogia, é um lugar onde todos devem ir todos os dias, durante um certo tempo, podem mover-se de acordo com as ordens do professor e dos sinos (sinais), devem aprender as mesmas coisas e provar ter esse conhecimento, são tratados todos como iguais, devem aprender o que os outros aprendem no mesmo tempo. A escola forma para o trabalho, portanto a escola já ela é uma pequena empresa, indústria que reproduz esse modelo, para que os alunos já vão aprendendo como é a realidade numa empresa. Talvez algum administrador leia esse texto e sinta-se ofendido por eu demonizar a escola por ela ser como uma empresa, seria interessante, ao menos eu veria algo diferente.

Vou tentar sintetizar algumas idéias: aumento populacional descontrolado, arrecadação não correspondente a quantidade de pessoas, má distribuição de renda, falta de trabalho, separação radical entre escola pública e escola privada, pedagogos ao invés de buscar soluções práticas ficam no nível teórico, reprodução do modelo empresa-indústria na escola tratando os alunos como mini-trabalhadores, ou trabalhadores a caminho (não sei do quê, se: primeiro não há emprego e segundo os professores não educam para o trabalho).

O problema grave do pedagogês é que os pedagogos(as) tornam tudo teórico-abstrato e ai implementam seus sonhos, suas teses de doutorado, mestrado nas escolas e cometem as maiores aberrações, não se vê bons projetos de educação, será que algum dia as crianças se interessaram pela leitura, pela escrita? O que está acontecendo? Será é porque atualmente temos mais televisões, video-games, computadores e isso chama maior atenção e é de mais fácil contato do que um livro? E em décadas atrás nem televisores tínhamos? Nossa curiosidade é reduzida ao que passa no Discovery Channel? Que bela merda.

Não aceito cair numa descrença total com relação a escola, ainda dá pra pensar algum projeto decente, dá sim, mas temos que nos dedicar mais a chegar nesse objetivo. Li ontem um artigo que falava que é necessário às crianças se por os problemas, as crianças vão para escola procurar aprender saberes já dados historicamente, tudo na escola é aula de história, não há lugar para nada novo, idéias novas, problemas novos, as crianças apenas vêem como se respondeu de determinadas maneiras em determinadas áreas certos problemas . As crianças nem os problemas postos pelos cientistas antigos, matemáticos, filósofos, nem a isso eles têm acesso, eles não sabem por que para Platão era importante compreender o mundo das idéias daquele jeito e não de outro, só um exemplo pra tornar o texto mais interessante, na época de Aristóteles já havia visões de mundo que defendiam que a terra girava em torno do sol, mas o que prevaleceu foi a visão de que era o sol que girava em torno da terra e essa visão foi formulada por Ptlomeu e prevaleceu até o renascimento, vejam só, uma maneira de responder a certas questões que é mais forte que a empiria da ciência moderna, isso é extremamente interessante, isso mostra a força de explicação dos 'mundos' antigos. Por que é negado as crianças a capacidade de conhecer? Por que elas só tem que estudar uma história das ciências toda fragmentada, sem explicações, sem colocação dos problemas, por que fazem isso com as nossas crianças? Malditos! Pedagogos imundos!

Tem que haver um problema, tem que haver a falta do conhecimento, a colocação de perguntas que despertem o aprender, a ponto do aluno ter que ocorrer atrás, ficar incomodado, procurar responder a uma problematização, dessa maneira a gente incomoda, mexe com o aluno, desperta a curiosidade, move o aluno aos livros e depois devolta para a sala, para a discussão, para a troca, reconstrução de saberes, isso é importante. A sociedade do consumo acaba com a vontade de conhecer, por que ela faz isso, que bosta, sociedade capitalista maldita, temos prazer a medida que temos dinheiro, em nome disso renunciamos a nossa humanidade, nossa vontade intrinseca de conhecer, aliás substituímo-la por uma vontade de obter coisas, comprar, adquirir objetos, coisa cretina! Problema da escola é grave, tem que lidar com o que a sociedade anda fazendo, como as pessoas andam se movendo no mundo e ao invés dela, escola, apontar outros rumos ela procura manter a ordem social vigente, do consumo. A escola ainda como indústria quer que todos aprendam a uma série determinada de coisas durante um certo período de tempo, isso condiciona a liberdade de trabalhar peojetos, de problematizar e construir com os alunos, nas aulas de Filosofia menos porque se tem maior flexibilidade para trabalhar os temas, os problemas, os autores. Até certo ponto também, porque o departamento de Filosofia aqui da UFSC quer por no vestibular questões de Filosofia e isso já condiciona de novo o trabalho dos professores.

O terror está instituído, a escola é uma bosta, os professores mal formados, mal pagos, desvalorizados, ridicularizados, os pedagogos falando sozinhos, ou vêem a realidade e fecham os olhos e querem falar de amor, solierdariedade, e acabam não fazendo nada, ou então vêem demais a merda como o mundo foi constituído e ficam estáticos, paralisados, sem saber por onde começar.

terça-feira, abril 27, 2004

Educar pra quê?

Educação que me irrita:

Tristeza essa perspectiva que se apresenta pra mim futuro professor de filosofia, estou apavorado, com medo, não sei o que fazer sobre a questão da educação no país. Os otimistas dizem que é possível mudar o mundo basta ter fé, quando chegam nas escolas muitos mais montam trabalhos que mais servem pros seus próprios egos do que realmente mudam a educação. Os pessimistas crêem que é impossível, dada a situação econômico-política, fazer alguma coisa, jovens sem perspectiva de vida que estão lá para bater ponto apenas, ganhar uma bolsa escola, receber um diploma que lhes garanta participar de algum concurso, ou ganhar um emprego que exija um mínimo de estudo.

Sou um guri, tenho 23 anos na cara e realmente não sei o que esperar. A escola será que só reproduz a maneira como a sociedade representa-se a si mesma? Dirão os otimistas que não, claro que não, a escola obviamente é produto de uma sociedade, porém ela não é apenas determinada por essa, ela tem o seu caráter de mudança, de reforma social. Caráter esse que pra mim está cada dia mais obscuro. Vou citar um exemplo pra ficar um pouco mais claro meu medo. Há um tempo atrás aqui em Florianópolis um dos colégios considerados mais fortes, que melhor preparava os estudantes, chamava-se Colégio Catarinense (que aliás continua se chamando assim), nesse colégio os alunos aprendiam cerca de 5 ou 6 idiomas, além de terem aulas de canto, ou piano, violino, no ginásio, entre outros conhecimentos que todos que conhecem um pouco da educação formal mais antiga, do início do século sabem como era. Eram preparados pra vida pública, era um colégio da burguesia claro, entendo isso, formar elites competentes. Hoje nem isso vejo direito aqui pelo Brazil, esse colégio hoje em dia é só mais um no meio a tantos que preparam pro vestibular. Os alunos saem dos colégios sem terem lido os livros mais importantes produzidos pela humanidade, seja em matemática, história, química, física, etc. Português, quantos de nós passou tantos anos aprendendo as questões técnicas de nossas língua para hoje continuar com os mesmos erros? História, como pode alguém formar uma visão de mundo, argumentar, como pode alguém sonhar sem saber da sua própria história? Quem não tem história está perdido no mundo, não tem início, não tem no que fundamentar, nem sabe quais os fundamentos de sua crença, não sabe de onde vêem as verdades que aceita... O que dá pra concluir desse exemplo é a adaptação da escola ao modelo da sociedade, não há uma escola que puxe a sociedade.

Isso é só pra espetar, não quero nem aprofundar demais nos exemplos, porque eu poderia escrever um texto só deles. Entrei na universidade e agora que eu vou notar o quão ignorante eu sou? É brincadeira. De mau gosto por sinal, pois paguei a vida inteira por uma educação de qualidade (paguei duas vezes, os impostos e as freiras) e cheguei a maturidade com uma visão histórica horrivel, geografia meu deus, biologia nem quero pensar, filosofia nem ouvi falar, idiomas inglês pela tevê... Paguei pra ser babaca, que beleza, isso é que dá achar que notas garantem inteligência, é esse o resultado. Uma educação ridícula, 'mas como, só tirei 10 a vida inteira?'. É comum ouvir dizer que as notas não significam nada. Será que não? Nossa vida acadêmica é só notas, somos a nota que tiramos, nosso histórico escolas não quer saber se sabemos de fato um tal conteúdo, ele informa uma nota que numa época da minha vida eu tirei, quer coisa mais estúpida que isso? Isso significa que eu sei? Se eu esquecer o conteúdo eu olho pra nota e lembrarei dele.

Não sei nem como redigir esse texto direito, sempre que falo de educação me vem tanta coisa a mente. Mas o que eu queria dizer é que fico dividido entre o otimismo idiota e o pessimismo imóvel. Como é que um professor sai dessa? Como ele ensina alguém a gostar de ler? Já ouvi dizer coisas como: 'devemos aproveitar a motivação natural do ser humano para aprender', tá tudo bem, aceito isso, mas como se faz com tanta tevê ligada, tanta gente que odeia ler, tanta gente formada por essa educação medíocre? Um ser humano que seja diferente nesse meio será uma bosta. Para alguém aprender é necessário lutar contra toda a estrutura social, nesse sentido o professor é apenas um ácaro sonhador. "Educar é preciso, a educação e a mudança... se cada um fizer a sua parte...". Nem os professores gostam de ler, muitos deles não sabem nem ler, nem interpretar, como é que vão mudar algo, mudar o quê, se nem entendem o que acontece? Se nem sabem interpretar o mundo, os fatos políticos, históricos... Mudar porra nenhuma, tem que mudar essa imagem sonhadora ridicula de achar que vão tranformar a sociedade. Se conseguirmos ao menos entender um pouquinho as coisas e passar isso pros alunos será um bom começo e além disso poderíamos, nós professores, esforçarmo-nos para que os pequenos aprendessem ao menos a ler direito, ou gostar de ler.

Como fazer alguém gostar de ler, tarefa árdua que envolve uma série de pré-conhecimentos? Motivar, motivar, só se fala nisso, não há uma técnica psicológica para fazer as crianças motivarem-se a ler? Não há nenhum estudo sério nesse sentido? Já ouvi propostas como a multidisciplinariedade na leitura de um livro, sim isso parece ser ótimo, a 'contação' de histórias contidas nos livros, pode ser um começo também... A escola deveria colocar sua força basicamente nisso, um aluno que sabe ler e adquire o prazer nas leituras saberá motivar-se. Alguém que começa a gostar de ler, daqui a pouco interesasse pela estrutura de um texto, pelos fatos históricos relatados no texto, pelos costumes trazidos no texto, pela maneira de pensar dos personagens, de defender suas idéias... Tá tudo ali, na leitura, e é o que menos se faz? Bibliotecas ridículas pra todo lado, cheias de livros idiotas de auto-ajuda, livros didáticos que não servem de nada a não ser fragmentar mais as idéias na mente dos leitores, entre outras aberrações, fim a esse tipo de biblioteca. Isso são as bases culturais de nossa nação, porra. Falar isso parece ser elitista. Vou chegar na escola e pensar: 'bom, como eles não sabem ler, nem escrever, nem pensar nunca vou trabalhar esses textos com eles, como eles não fazem tarefas, não gostam disso, disso e daquilo, preciso me adaptar a tudo isso, pra quem sabe um dia, se eles quiserem, se permitirem, eu possa trabalhar um conteúdo".

É essa a escola contemporanea? Rimos tanto da idade média, somos os burros atuais, que repetimos o que os livros de auto-ajuda vendem todo dia, vemos nossos discursos nos livros e achamos que estamos progredindo com relação ao conhecimento. Vemos os nossos diálogos nas novelas e vemos que a nossa vida está de acordo com a da novela, Discutimos as nossas 'leituras' e os 'programas' que vemos com os amigos/amigas e temos a sensaçao maravilhosa que pertencemos de fato a essa sociedade. Esse espelho social é refletido em tudo que 'dá certo'. O que 'dá certo' é o que consegue relacionar-se mais fielmente à realidade. Os livros mais lidos, os filmes mais vistos, os cds mais escutados, os programas de maior audiência, são o reflexo do social. Querer propor outras coisas é idiotice, é gostar de sofrer, gostar de bater de frente com toda uma nação, com toda uma situação histórica que acabou por se configurar dessa maneira e não de outra. Como fazer então, vendo essa realidade como se apresenta, o que há pra fazer? Temos que ir contra ou a favor? Eu acho que o professor não deve ficar nessa de contra ou a favor, acho que ele poderia dar o mínimo de subsídios para que seus alunos pudessem optar por essa ou outra realidade, que só eles poderão construir ou lutar por. O professor está no papel de informar, de construir saberes com seus educandos, de questionar, de ajudar a analisar. Quem vai escolher uma mudança é a sociedade, só ela pode fazer isso. O que me deixa com a pulga atrás da orelha é sonhar com a idéia de que com uma população 'instruída' a luta por uma construção de uma identidade nacional efetivamente nossa parece ser mais próxima, mas sei lá o que eu quero dizer com isso. Só estou procurando uma frase de impacto pra terminar o texto com uma esperança. Que venham os monstros então, vamos ver se eu vou morrer ou não na praia quando as dificuldades aparecerem.

sábado, março 06, 2004

Greve ou Privatização

Greve ou Privatização

É incrível como se questiona ultimamente os resultados de uma greve de servidores públicos, parece que por esses terem direitos a mais que as outras classes trabalhadoras do país qualquer exigência por eles feita é sinônimo de absurdo e une-se ainda a esse sentimento o questionamento sobre a qualidade de seus trabalhos, mais um motivo portanto para se posicionar contra qualquer tipo de manifestação dessa 'turma'. Os universitários federais dizem que a greve não tem nenhum sentido veja-se os resultados, será mesmo? Será que é só uma bobagem? Obviamente os objetivos das greves não são totalmente alcançados, mas entendo que quanto menos se faz oposição a um tipo de movimento mais facilmente esse se desloca. Então se o movimento é de privatização das instituições estatais quanto menos exigimos condições dignas de trabalho, qualidade dessas instituições e etc, mais rapidamente vemos essas perderem sua força, até o momento de serem privatizadas.

Universidade pública gratuita e de qualidade no Brazil é privilégio de pouquíssimos, 5 a 10% dos habitantes do país, esses privilegiados em geral são das classes mais altas de nossa sociedade, ou seja, que poderiam pagar pelo seu estudo, que tiveram uma preparação muito melhor durante toda a vida e o resultado disso foi a entrada na universidade. A sociedade brasileira então sustenta essas classes lá, enquanto vê seus filhos mais necessitados em busca de crédito educativo, financiamentos, pedidos de empréstimo, emissão de promissórias para poder estudar numa universidade particular muitas vezes de grau muito mais baixo que uma pública. Seria justo isso? Onde está a igualdade de condições?

Além disso os universitários federais em geral acham ruim a greve, as manifestações, pois têm o desejo de formar-se logo, adquirir seus empregos, constituir suas famílias, tempo é dinheiro. Quer dizer então que eles (universitários) acham ruim que os servidores públicos federais lutem pra manter uma mamata de qualidade pra essa elite? Porque eu não consigo entender de outra maneira essa situação. Alguns estavam contentes até com a reforma da previdência, estranho, pensando que com essa muitos dos melhores profissionais do país estariam a se aposentar para conseguir um pouco mais de benefícios por parte do Estado e não estarem mais com paciência de suportar esse tipo de política.

Além de não darem nenhum retorno a sociedade brasileira daquilo que aprendem de forma gratuita, alguns professores defendem que a melhor coisa que a universidade pode fazer é formar bons profissionais para o mercado, os universitários ainda reclamam dos servidores públicos que lutam por seus direitos (alguns chamam esses até de vagabundos), por isso que penso que as universidades federais devam ser privatizadas imediatamente, chega de perder tempo com gente que não se importa com o país, se não estão nem aí pro país este também não deveria estar nem aí pra esses vagabundos. Por que a grande massa tem que pagar por seu estudo calada enquanto essa elite que tem a maior teta de todas ainda reclama que o país não pensa neles? As classes mais baixas pagam pelo seu estudo privado e ainda pagam pelo estudo desses retardados, faz sentido isso? Não mesmo, chega de enviar dinheiro para esse pessoal. Já que pagaram o ensino até entrar na universidade, que paguem também por uma universidade privada de qualidade, pronto, resolvido o problema. A sociedade brasileira precisa se posicionar contra essa classe de elite!

Quando houve a reforma da previdência o argumento era semelhante, uma classe de pessoas que ganha salários exorbitantes enquanto a maioria dos trabalhadores nacionais além de ganhar pouco, não tem a metade de benefícios dessa classe de marajás que ainda assim não trabalham. Que faça-se a reforma já, chega desse pessoal desfrutando do dinheiro público enquanto a maioria tem que se matar todo dia e ainda oferecer um trabalho de qualidade para não ser demitidos. Precisamos estabelecer um teto para que daqui a cinquenta anos se tenha dinheiro para conseguir pagar a aposentadoria da maioria. Se estamos tão preocupados com a educação, com o dinheiro público, então deixemos de sustentar esse pessoal que pode pagar e não se importa com o país, chega de dar teta gorda pra esses vadios inconsequentes. Vamos gastar esse dinheiro com o combate a fome, a miséria, a melhora dos colégios públicos de ensino fundamental e médio, criação de coperativas de crédito para atender às comunidades que desejarem por seus filhos na universidade e não tiverem condições, entre outras coisas.

Lugar de universitários inconsequentes é na universidade particular! Privatização já! Marajás!

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Não existe técnica inocente! Nem técnicos inocentes!

Não existe técnica inocente! Nem técnicos inocentes!

Não procurem se safar engenheiros e outros técnicos de nossa sociedade atual, vocês são culpados por tudo isso que ocorre, ainda mais que tem títulos universitários, são os intelectuais esclarecidos, mas mesmo negam a sua liberdade em nome dos discursos famosos: "é tudo vê né cara tenho que sustentar a minha família, ganhar meu dinheirinho, comprar minhas coisinhas, o que é que eu posso fazer, a revolução?"; tenho pena desses ignorantes desse tipo e discurso, procuro entender o lado deles, pois já que não estudaram nada de história, de política, filosofia, sociologia, não conseguem fazer nenhum tipo de análise crítica para a partir daí repensar suas formas de agir no mundo!

Por que são os engenheiros culpados se eles somente põe em prática as técnicas que aprenderam? Oh não seria exagero demais de sua parte, Daniel? Realmente fui equivocado, a técnica é neutra e a culpa é do mercado malígno que quer só o consumo para poder se manter sempre girando e com isso manter a economia sempre feliz :) Talvez haja um pouco de culpabilidade aí sim, por acaso a técnica se realiza sozinha? Não; e a técnica funciona a serviço de quem? do bem-estar das pessoas? Supostamente sim; mas então por que existem tantas pessoas não usufruindo dos benefícios de uma coisa tão maravilhosa? Ah porque o mercado não quer, os homens malvados que ninguém conhece chamados de grandes empresários são malévolos e não querem que mais de 2/3 da população mundial seja feliz com o mínimo de condições dignas a sua sobrevivência? Mas então como esses senhores ganham aplausos, admiração nossa, alguns deles são até modelos de vida bem sucedida e feliz? Estranho mundo esse.

Os engenheiros são culpados sim! Porque eles vêem que a técnica está a serviço da economia, do mercado, vêem que cada vez mais existe engenharias, mas nem por isso a qualidade de vida da população mundial melhorou, afinal que técnica é essa que exclui 2/3 da populaçao mundial, se não existem engenheiros para realizar esse tipo de serviço, quem o fará? O mercado? Ele não age sozinho, age na mão de cada profissional, logo a engenharia é culpada, e cada ato de um engenheiro que põe em primeiro lugar o mercado e não o povo é culpado e merece pagar por isso diante do tribunal do povo. Cada adolescente idiota que escolhe tal curso (engenharia) como seu, está legitimando toda essa lógica, se somos realmente livres e queremos ter responsabilizadade pelas nossas escolhas, devemos então pagar por isso! "Ah não pode culpar o profissional por realizar o seu trabalho, devemos tentar mudar a partir de dentro", a partir de dentro ninguém muda nada, quando se entra dentro (se é que algum dia já se esteve fora) não há saídas, estando dentro dele dizemos "ah você vê eu tenho que trabalhar, estou garantido aqui, não posso por tudo a perder, tenho família, casa, e tudo mais, o que eu vou fazer, né, deixa isso pra lá", a segurança econômica individual é mais importante que lutar por condições dignas de mais de 2/3 da população mundial? E eles, quem vai chorar por eles? Madre Tereza de Calcutá? para depois nós beatificarmos ela por tudo aquilo que não fazemos e que não queremos ser responsabilizados?

Se o profissional vê que o trabalho dele não melhora as condições de vida do povo, se vê que está trabalhando apenas para o lucro de grandes corporações, e não faz nada, ele não tem culpa por isso? Ele não é cúmplice? É como me contratarem para matar alguém e dizer: "mas eu estava apenas cumprindo ordens"; esse é o mesmo argumento que os oficiais de III Reich usaram para se justificar da morte dos judeus. Se você vê que tudo é assim e não sabe o que fazer, acha que a solução é entrar num partido político? Andar pelos morros fazendo ações sociais para o seu ego, etc; quem sabe você muda suas escolhas no mundo, suas práticas, seu modo de agir e pensar esse mundo, isso é o máximo que você pode estar fazendo, pois isso te liberta de qualquer prática artificial assistencialista que possa passar pela sua cabeça! Não existe neutralidade, a gente faz escolhas, ao escolher um tipo de educação, um tipo de curso, um modo de realcionar-me com o mundo, estou me posicionando politicamente, não posso dizer que não tenho culpa, o mundo se encontra nessa situação porque ninguém tem noção de culpa, de responsabilidade! É impossível isso! Não é aceitável depois de mais de 2500 anos de civilização ocidental ainda dizermos esse tipo de coisa!

O que temos hoje é a legitimação do que ocorre pondo a culpa em todos, de quem é a culpa do mal no mundo? de todos, segundo a lógica, se a culpa é de todos ela acaba sendo culpa de ninguém. Todos estamos justificados. Ninguém precisa se preocupar com isso, os engenheiros estão justificados. "Se todos amássemos uns aos outros o mundo seria melhor, mas como não fazemos, então tudo bem, vamos curtir a vida", que espécie de discursos medíocre é esse? Que burrice é essa? Não é questão de amar ninguém, é questão de garantir condições de vida digna a todos os habitantes dessa porra de planeta! E isso é o que? Idiotice esquerdista? A questão não é o amor aos irmãos, nem sermos bonzinhos, nem todos termos um pouquinho para que todos sejamos iguais, a questão é lutarmos pra garantir aquilo que for digno para as pessoas!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

A educação como prática que vise questionar o sistema econômico?

A educação como prática que vise questionar o sistema econômico?

Apesar de ser muito simpático a idéia de uma educação que realmente coloque a criança, adolescente em contato com a história das idéias, para a partir da situação (perceber-se situado num contexto histórico) poder ler o mundo e aí sim se rebelar talvez contra ele ou então aceitar tudo que o mundo oferecer e agradecer a deus por tudo ser assim do jeito como está. Tendo um pouco de medo ao pensar que estarei, ao dar aulas, lutando contra toda uma lógica de um sistema econômico-político que determina a vida dessas crianças, como fazer isso? Como lutar contra os programas de televisão prazerosos, as músicas, contra a galerinha, enfim contra tudo que dá prazer a essas(es) crianças/adolescentes? Não sei bem como farei isso.

Dizer que o sistema é demoníaco e que acabará com a vida deles não funcionará, dizer que as pessoas pobres do mundo dependem da consciência deles, não adiantará, mostrar como a lógica desse sistema econômico parece influir em todas as relações humanas parece ser um bom caminho. Engraçado que no contexto atual para entender-se no mundo é necessário o conhecimento além das disciplinas da escola, uma noção boa de econômia. A econômia alcançou um grau tão alto de abstração(digo isso pensando no caso do câmbio flutuante, inflação, deflação, superavit primário, dinheiro virtual, notas circulando sem o equivalente em lastro nos cofres de bancos...) que carece de uma sutileza na investigação muito grande, creio também que a crítica que Marx faz a econômia política no Capital ainda é insuperável, e serve e muito para ajudar a ler nosso contexto atual.

Como se cria consciência em alguém, creio que não se faça isso, se ajuda a desenvolvê-la. E como se faria isso com crianças e adolescentes que se movem basicamente pelo princípio do prazer a curto prazo. É como pensar o seguinte: "não alimentarei a criança com tais alimentos, porque ela não gosta, e se ela não gosta é melhor não forçar...", nesse sentido a criança aprenderá que o que importa não são os benefícios alcançados a longo prazo e sim os de curto alcance. Não devemos forçar a criança a fazer nada que ela não queira fazer, bom a criança não quererá fazer nenhum tipo de atividade que envolva esforço, sacrifício, então fará apenas o que 'gosta', a questão parece ser que a criança não gosta de nada intrinsecamente, ela apenas se move pelo princípio básico do prazer, a atividade que gerar mais disso será a escolhida, e então atividades menos prazerosas como a leitura, reflexão, crítica ficariam de lado.

É esse o adolescente que está nas escolas, foi acustumado a ter prazeres por meios muito simples e não deseja mais realizar esforços para obter seu prazer. Como despertar nesse cidadão a consciência crítica, a importância de uma reflexão profunda sobre o nosso modo de vida atual? Recorrer a argumentos românticos, religiosos? Apelar para a importância do ser humano se situar no mundo e ser autonomo em relação às suas decisões? Parece que lutar na escola para que os estudantes queiram algo diferente do que nos impõe um modelo político-econômico é difícil, sofrido, diria até. Que prazer pode haver para um ser humano nessas condições (do prazer simples, rápido, instatanêo) em querer se situar no mundo, ou seja, entender-se a si mesmo e aos outros, entender o mundo no qual vive, age, sente; será que isso poderá um dia ser mais importante para um adolescente do que ter um prazer rápido e fácil como ver um filme, comer uma comida deliciosa, transar, ouvir uma música agradável, trocar uma idéia com um amigo(a)...

Talvez não precise haver essa oposição, mas que haja então uma reflexão sobre a importância da responsabilidade das escolhas que se faz no mundo, sobre a necessidade de se entender para poder se sentir vivo, para não apenas assinar embaixo daquilo que já foi feito, mas verdadeiramente atuar de formar séria, crítica. Sem uma boa compreensão daquilo que aconrece é impossível haver um crítica bem feita, uma prática realmente libertadora, haverá sim reprodução alienada do mesmo com fantasia de mudança. Daí a necessidade da investigação minunciosa, do rigor intelectual, de aguçãr sempre mais a curiosidade, de procurar as bases de onde decorrem os prinpíos mais gerais.

A complexidade do mundo só aumenta, a quantidade de informação que se tem também, digamos até que o conhecimento aumenta também ( se é que as produções acadêmicas de papers visando altos níveis em cnpq seriam conhecimentos novos produzidos) a capacidade de ter-se visões gerais cada vez mais diminui, a exigência de rigor intelectual só cresce, o prazer parecer diminuir cada vez mais com a especializações absurdas e tudo isso impulsiona somente a vontade de não-saber. Os cursos técnicos só aumentam e os cursos teóricos são deixados de lado, por especializarem-se demais, aprofundarem-se muito e perderem de vista o mundo concreto dos homens mortais. Diante desse quadro, os adolescentes preferem fugir, eles que só queriam ouvir um som, sair com a gata(o), bater um rango, curtir uma praia, precisam de se situar no mundo, pois é uma exigência do mundo atual.

Tudo bem senão se situarem, com os seus pais ocorreu o mesmo, então não tem porque se preocuparem com isso, pois vêem que os seus pais mesmo não sabendo de uma porção de coisas, conseguem se virar, ganhar sua graninha, tocar a sua vida, o problema que se impõe é a exigência de que se tenha responsabilidade coletiva, mundial. Para isso é necessário que a educação seja uma peça na construção das consciências, se é que se pretende algo mais, algo mais além do que suas próprias decisçoes particulares. A filosofia pode contribuir nesse debate mostrando as implicações das escolhas, não só a filosofia, mas a história ao longo das épocas pode ajudar a remontar a força das decisões humanas, as ciências... Não sei se será possível lutar contra algo que parece tão abstrato e geral que impõe-se em todos os âmbitos da nossa vida, a economia tomou conta de tudo, por exemplo: da nossa escola pro mercado trabalho que dê mais dinheiro e determinada pelo próprio mercado (OMC). Queria poder ser mais forte quanto aos meus sonhos, mas percebo que ser livre e assumir as responsabilidades por isso é algo muito pesado e que um indíviduo apenas não conseguirá.

sexta-feira, novembro 28, 2003

Comecei pensando na escola e terminei numa idéia que vem me incomodando - que aliás pode ser pensada em termos de educação.(Primeira publicação filosó

Comecei pensando na escola e terminei numa idéia que vem me incomodando - que aliás pode ser pensada em termos de educação.(Primeira publicação filosófica metafísica).


A escola como espaço de onde pode brotar a subjetividade humana, saindo de uma condição de apenas reprodutor da cultura, e tomando as responsabilidades por suas próprias reflexões, obviamente não há como não reproduzir, o problema parece ser quando se é apenas reprodutor inconsciente disso, não entender a situação histórica da própria vida em sociedade e individual parece levar-nos a adaptar-nos apenas as situações postas. Esse tipo de atitude é anti-reflexiva, pois visa concretizar o real, o quotidiano, concretizar no sentido de petrificar, dizer que 'é' assim e não irá mudar, comparativamente seria como olhar para uma tal pessoa e querer dizer o que ela é analisando um certo pedaço da vida dessa pessoa e fechando a análise sobre ela dizer: 'ah essa pessoa É isso'; Esse 'É' significa paralisar a pessoa, definir a sua natureza humana imutável, lógico que quem conhece a história de uma tal pessoa sabe que muito das coisas que essa pessoa faz é produto do seu passado e muita reprodução da cultura vigente, e então muita coisa é repetição, mas há sempre o espaço, mesmo que mínimo para o novo vir a ser, o espaço onde a pessoa se possibilita não ser somente aquilo que os outros a definem, mas sim ela escolher moldar-se.

Os professores ao chamarem os alunos para a 'discussão inútil', como é chamada por professores em geral dos cursos de exatas entre outros, fazem com que eles se instiguem a pensar, a se problematizar, a tomar como suas as questões que andam por aí incomodando a sociedade. Chamam para o posicionamento, 'como eu penso tal questão', 'que eu acho de tal assunto', 'como faria com relação a isso', 'por que acontece isso deste jeito', 'eu posso ou devo fazer alguma coisa?'. Essas idiotices que são contra a lógica econômica, porque são improdutivas, são os momentos onde as crianças aprendem a relacionarem-se com um todo onde estão submersos e não vêem, não percebem a cultura nas suas veias, sonhos, sentimentos, conceitos em geral. Quanto antes percebem, antes têm a possibilidade de assumir concretamente a sua realidade, cito Hegel: "É como uma necessidade; o indivíduo educa-se nesta atmosfera, não sabe de nenhuma outra. No entanto, não é simples educação e conseqüência da educação; esta consciência é também desenvolvida pelo próprio indivíduo, não lhe é ensinada: o indivíduo existe nesta substância(...) Nenhum indivíduo pode ultrapassar tal substância; pode, sem dúvida, distinguir-se de outros indivíduos singulares, mas não do espírito do povo(...) Os de maior talento são os que conhecem o espírito do povo e por ele sabem guiar-se. São os grandes homens de um povo que guiam o povo e por ele sabem-se guiar. Por conseguinte, para nós, as individualidades desvanecem-se e surgem-nos apenas como as que põe na realidade efetiva o que o espírito do povo pretende(...) Os indivíduos desaparecem perante o substancial universal, e este forma os indivíduos de que necessita para o seu fim. Mas os indivíduos não impedem que aconteça o que tem de acontecer" (Razão na História p57).

Outra parte muito interessante desse texto e que cabe a essa discussão: "(...) A propósito destas determinações, deve observar-se que, muitas vezes, se faz uma distinção entre o que o homem interiormente é e os seus atos. Na história, isso é falso; a série dos seus atos é o próprio homem. Imagina-se, decerto, que a intenção, o propósito, pode ser algo de excelente, mesmo quando os atos de nada valem. (...)A verdade é que o externo não é diferente do interno. Semelhantes sutilizas de distinções momentâneas não ocorrem na história. Os povos são o que são os seus atos. Os atos são o seu fim." (Hegel - Razão na História p62). É sempre o velho problema de onde encontra-se o indivíduo, sujeito que sente e age de tal maneira, dentro de uma totalidade de uma cultura, na verdade não há essa separação, o indivíduo é essa cultura e ela é o indivíduo e os dois se determinam mutuamente para a vida inteira, cito Hegel agora a meu modo, a História é sempre igual e sempre diferente, se fosse somente igual, já não seria História porque seria sempre o mesmo, na natureza é o eterno retorno do mesmo, por isso não há História natural, mas a História também não é só diferente, senão olharia para trás e já não se reconheceria por estar sempre em mudança.

Em tudo que escrevi até hoje sinto em grande parte que tenho uma veia hegeliana, falta-me muitos conhecimentos de história para enfim sentir-me como produto do espírito universal, para a partir daí poder quem sabe apontar para alguma coisa, que nunca será inteiramente nova, embora que seje um pouco diferente.

Mas com relação à escola, penso que o processo poderia ser esse, como já disse em outros textos, fazer o aluno compreender a história das idéias para daí em diante assumir sua identidade universal, reconhecer-se como membro desta humanidade ao invés de ficar achando que se autoproduziu, quem não crê que é fruto de uma cultura humana deve necessariamente acreditar que existam idéias inatas, ou que alguma deidade fora deste mundo estaria controlando o destino dos homens. A dificuldade do professor consiste em tentar fazer os alunos perceberem-se como fruto da totalidade, como fazer isso se eles são produto da idéia pós-moderna de exacerbação da idéia da individualidade, não conseguem ver todo algum, apenas partes que querem impor a totalidade. Esse desgarramento que existe é uma ilusão, Parmênides riria da pós-modernidade com seus elogios a diferença(todos somos diferentes - segundo a lógica se todos somos diferentes todos somos iguais), diria nos seus Ensinamentos sobre o ser, no seu poema acerca da natureza: "Que o ser não é engendrado, e também é imperecível:/com efeito, é um todo, imóvel, sem fim e sem começo./Nem outrora foi, nem será, porque é agora tudo de uma só vez,/uno, contínuo./ Que origem buscarás para ele?/ Como e onde teria crescido?/ Do não-ser, não te permito/ Dizê-lo nem pensá-lo: não é possível dizer nem pensar/ o que não é(...) E nem sequer do ser concederá a força da crença veraz/ que nasça algo diferente dele mesmo; por esta razão, nem o nascer/ nem o morrer lhe concedeu a Díke (justiça)(...)/ E como poderia existir o ser no futuro? E como poderia nascer?/ Se nasce, não é; e tampouco é, se é para ser no futuro./ E assim se apaga o nascer e desaparece o parecer.(...)/ Não existe não-ser que lhe impeça alcançar a plenitude/ Nem pode ser ora mais pleno, ora mais vazio porque é todo inteiro inviolável,/ igual a si mesmo em todas as partes(...)/ Todas as coisas são meros nomes/ dados pelas crenças dos mortais:/ nascer e parecer, ser e não ser,/ mudar de lugar e mudar da luminosa cor". O ser enquanto ser é uno, não perceber o ser como uno e achar que no mundo o que impera é a mudança é o caminho da opinião, o ser e o nada se equiparam, não há movimento, só ilusão. Estou fazendo uma leitura parmenidica de Hegel. Não perceber o espírito, o ser, em si mesmo e em tudo, é um erro dos sentidos.

Percebamos o Ser, o absoluto, o espírito do mundo que a tudo rege por nós, em nós e para nós, aceitemos que o devir nada é, senão a falta de rigor na observação. O ser é, o espírito como ser é aquele que não pode escolher algo que não seja a si mesmo, neste gesto de voltar-se para si infinito é que se dá todo o giro sobre si, o ser que se põe a frente de si e escolhe sempre a si mesmo, o ser está condenado a liberdade de só poder escolher a si mesmo e portanto ser inteiramente livre e inteiramente determinado. A ilusão do movimento de girar sobre si e ser sempre o mesmo.

sexta-feira, novembro 07, 2003

No quotidiano tudo gira

No quotidiano tudo gira

São sempre os mesmos problemas, dificuldades, dramas, situações, o que não é sempre igual é o olhar, somos nós com relação as cenas, os atores. É como aquela música: 'todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, e sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã... todo dia ela diz que é pra eu me cuida e essas coisas que diz toda mulher, diz que está me esperando pro jantar e me beija com a boca de café...' No quotidiano qualquer grande abstração torna-se algo prático do qual depende sempre a próxima ação, idéia, então o quotidiano equivale a sucessão de fatos que nos impõe diariamente maneiras de nos posicionarmos, de resolvermos nossos problemas, maneiras de sentir sempre novas, portanto é sempre tudo de novo, já que nós somos sempre um pouco não-iguais, apesar de conservarmos grande parte do igual que éramos.

Diziam uns amiguinhos(as) meus que sentem dificuldade de reter as reflexões por causa das situações diárias que necessitam sempre de uma maneira de agir rápida, instantanêa, às vezes contrarias a reflexão, independente ou não da reflexão, cada ato tem uma consequência, exige responsabilidade, então quanto mais consciente das implicações, mais senso de responsabilidade, ou não. Dizia eu em resposta a eles(elas) que esse distanciamento que fazíamos em alguns momentos (do quotidiano) servia apenas pra termos um pouquinho mais de consciência de que a vida que estamos vivendo é a vida que estamos escolhendo em cada pequenino ato, e então perceber-mo-nos como responsáveis por essa vida que estamos vivendo. De que somos nós os autores que estamos pintando-a. Distanciar-se só serve pra isso, pra sentir-mo-nos como quem escolhe os conceitos que vão guiar a nossa vida (isso quando dá pra pensá-los), mas parece que dessa forma dá um gosto a mais no nosso viver.

No senso comum os conceitos sobrevivem como um turbilhão, senão tentamos organizá-los um pouco ficamos impressionados como um conceito pode ter o sentido de muitos outros. Um exemplo bem claro disso são os conceitos de amor, prazer, segurança econômica, felicidade, planejamento familiar (gestão da família, do relacionamento), todos esses conceitos são sinônimos no nosso bom e nem tão velho Ocidente. E esse turbilhão é mais ou menos o que acaba nos governando e tirando o senso de responsabilidade que temos ou deveríamos ter com relação aos nossos atos, nossa maneira de agir do mundo, sobre a nossa vida. Não quero dizer que devamos conhecer os conceitos para enfim romper com essa ideologia assim ou assada, talvez seja justamente pra olhar todo esse emaranhado e dizer sim a tudo isso, ou então não, indignar-se e buscar esclarecer o que certas coisas significam, pra sentir-se um pouco mais confortável nesse mundo, achando que a razão individual realmente pode organizar o caos de conceito que vivemos.

A própria expressão que usa-se: 'mas você só vive, não reflete?', já contém toda uma história, uma tradição meditativa, reflexiva, que nos convida a pensar em certas coisas. Entrei na filosofia com o espírito da utilidade, ainda carrego muito dele em mim, 'por que faço tal coisa, ah porque me rende tal outra, ótimo', precisando sempre ter claro pra mim o que estou fazendo, por que, pra que, e tudo mais; o choque que sofri ao entrar no curso de filosofia e ver todas aquelas indefinições, aqueles conceitos, foi duro, mas no fundo estou aos poucos conseguindo pegar a dinâmica do curso, no fundo são homens e mulheres que incomodavam-se de 'somente e viver' e acreditavam que podiam, ou então, que deveriam organizar esse mundo de conceitos na qual eles vivem ou viveram, pra poder sentirem-se mais vivos talvez, segurando um pouco mais as rédeas da sua existência, digo 'um pouco mais', pois se somos livres realmente e não temos consciência de todas as consequências dos nossos atos no mundo, então obviamente não teremos controle sobre como que fazendo uma certa coisa essa possa ocasionar, ou desencadear uma série de acontecimentos inesperados.

Ao final da vida sabemos que fomos mais vividos por conceitos que não pensamos e nem escolhemos nós próprios do que propriamente fomos vivos no sentido forte da palavra, escolhendo e tendo responsabilidade por nossas escolhas, e vendo que a culpa dos nossos atos no mundo não podem ser mais atribuídos a ninguém mais a não ser nós mesmos. Ao final de alguns meses lendo Sartre e alguns comentadores, percebo o quanto esse pensador gostaria de ter controle sobre a sua vida e seus conceitos, e o quanto que ele gostaria que a consciência realmente fosse a imperatriz a governar a sua vida (indo no passado resignificando conceitos de acordo com os projetos futuros), mas parece-me que não é tão simples assim e que realmente o ambiente imprime-nos certos conceitos e modos de pensar, agir, julgar, que não se tem muito controle e querer ter claro tudo isso é bem complicado, pois demanda uma minunciosa análise de como o mundo, as pessoas, te tocam, vão deixando marcas em nós, e ajudam a formar a rede conceitual com que vivemos todos os dias. Talvez fosse bom ter presente de onde vieram tais e tais conceitos, para poder julgar e decidir comprometer-se com eles ou então reformulá-los, assumindo novas responsabilidades.

Mas mesmo assim, isso não nos dispensa da tarefa heideggeriana do afastamento do ente, ver o mundo da perspectiva do Ser, tudo bem não irei continuar com a diferença ontológica. Sinto-me mais consciente de minhas ações no mundo e como tomar ou fazer certas escolhas me ajuda a construir-me realmente, consegui negar realmente muita coisa e maneira de pensar, conseguir reformular outras crenças e maneiras de me posicionar, mas isso porque eu fiz a experiência de tentar pensar o mundo, e aliás estou fazendo ainda, de tentar cada vez mais me situar e entender certas coisas, mesmo que não chegue a lugar nenhuma, meu objetivo é encarar um ceticismo no bom sentido do termo, que não pare de pesquisar e nem de estudar, nem de buscar entender, do contrário como algumas correntes céticas que já que não podiam ter certeza de nada atiravam-se a alguma religiosidade, ou alguma crença, e procuravam por ai a 'ausência de preocupações'. Meu ceticismo é a busca incessante pelo nada, preciso ir até o nada, vê-lo, beijá-lo na boca e morrer.

E a luz voltou...

E a luz voltou...

Graças a deus dizem alguns, obrigado aos funcionários técnicos e engenheiros da CELESC (Central de Energia Elétrica de Santa Catarina), outros xingam os engenheiros e técnicos, chamando-os de irresponsáveis, outros ainda dizem: parabéns a cidade de Florianópolis que soube se comportar tranquilamente, essa pessoa provavelmente não ouviu sobre os quinhentos assaltos e um estupro - isso foi o mínimo dos mínimos registrado (tudo bem que o coronel da polícia disse que esses atentados foram todo o tipo de ocorrência desde: não estou encontrando meu gato - até - acho que fui estuprado).

É o caso será de agradecer? Se fosse de graça, talvez até agradeceria, mas foi o próprio erro de técnicos da CELESC que proporcionou todo esse momento agradável para os moradores da ilha, o prejuízo que a CELESC teve sem o lucro do abastecimento de toda a parte da ilha, fora ainda os processos que vai levar pela perda de alimentos nos supermercados, pode ser também responsabilizada pelos roubos, entre muitas outras coisas. Pensando bem quem mantém a CELESC somos nós, se ela for processada e tiver que pagar algo, seremos nós que teremos pagar...

Os locutores de rádio das notícias quase choram ao dar essa notícia "emocionante", pois "vivemos momentos difícies e precisamos ficar unidos", que emoção, quase me comovi, morre gente todo dia de fome, frio, assassinatos nos morros, e esse falso romantismo por causa da falta de energia? "Graças a deus", coisa nenhuma, os problemas nos afetaram, nós, pessoas consumidoras, por isso é um grande problema que fiquemos sem luz, alguém está preocupado mesmo se estamos numa situação difícil, ou não, (lá vou eu falar obviedades), ninguém está nem aí, o lucro que determina o que é de suma importância, já que esse pessoal mendigo, que faz "rabicho" pra conseguir água, luz, telefone; que não tem dinheiro pra consumir, esse pessoal tem mais é que morrer, eles são o que existe de pior pro mercado. Já os florianopolitanos (que considerou-se só a parte da ilha, pra quem não sabe de geografia, saiba que a cidade de Florianópolis não reduz-se só a ilha, mas tem uma parte continental) povo consumidor e digno esse necessita urgente ser provido de serviços básicos a sua existência como shopping center, televisão.

Estamos preocupados conosco, não afetando a nossa vida, que se danem os demais. Agora se eu puder utilizar esse momento quem sabe pra oferecer uma filantropia, quem sabe eu saio na televisão, ou então, eu ponho no meu currículo, "ajudei as pessoas napagão", posso me utilizar desses momentos pra conseguir algo que me seja interessante. Acabei de ouvir uma informação importante, como disse o radialista, "Beira-Mar Shopping já está em funcionamento, aviso aos funcionários que voltem imediatamente a trabalhar". Os adolescentes devem ter ficado de plantão na frente do seu templo preferido, "será que aconteceu alguma coisa com o BOB´s? O McDonalds vai sobreviver?", tudo voltou a normalidade, reflexão? Que nada, vamos consumir, isso parece o que o presidente Bush disse após o atentado as torres, "não deixem de consumir, comprem bastante", afinal só o que mantém o nosso complexo sistema somos nós os compradores "emergentes", acho muito curioso pensar que se deixarmos de consumir o grande e complexo sistema econômico desmorona.

Disse uma garota que estuda comigo algo muito pertinente: "ta e dái todos estão aí falando que com o apagão se pôde fazer coisas que não se fazia quando tinha luz como conhecer os vizinhos, a família dialogando, entre outras coisas, mas então por que essa obsessão por voltar de uma vez a vida robótica? Por que já que as pessoas odeiam tanto esse modelo de vida imposto, por que aceitam ser escravizadas e tornadas robôs? As pessoas nem sabem o que escolher senão aquilo que se apresenta a elas, ou seja, a vida de robôs". Concordo com ela, ou caímos em algum tipo de fatalismo, deve ser o espírito cristão que permeia a cultura e chama isso aqui que vivemos de "vale de lágrimas" e aceitamos isso. Eu penso que quem acredita que tudo é assim mesmo e nunca irá mudar e que Deus ou o FMI quis assim então será isso é uma grande idiotice, produto de quem não sabe de história, pra quem não olha pra trás e vê o que certas lutas mudaram até agora na história da humanidade, se olhássemos ao menos pra nossa América Latina, nem a história do Brazil sabemos que povo que se movimenta desse jeito vai pensar em algo senão o que está aí: "Tudo sempre foi assim e assim sempre será"; declaram os profetas, a menos que esse pessoal acredite num céu ou num inferno a coisa vai ficar feia pro lado deles.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Luz X Trevas, a luz se foi, tudo é permitido na calada da noite

Luz X Trevas, a luz se foi, tudo é permitido na calada da noite.

Imaginem se eu deixaria de escrever sobre esse fato histórico na cidade de Florianópolis, nesse momento começamos a levar Heidegger a sério quando fala sobre a nossa total dependência da técnica, no caso da ilha da magia - da energia elétrica. Dois profetas do caos nessa quarta-feira ao tentar consertar um cabo principal que alimenta a parte da ilha da cidade de Florianópolis, acabaram rompendo o tal cabo e com isso deixando uma parte da cidade sem luz, nas trevas ! Quarta-Feira dia 29 de outubro.

Sinaleiras desligadas, as pessoas correndo, tráfego, a universidade federal na quarta-feira já começa a fechar suas portas e expulsar alunos e professores, antes que o caos se instale. Já que estamos sem a proteção divina, a luz que nos protege, sem essa não sabemos conviver, nossa natureza humana, egoísta, negra se manifesta. Sem a luz elétrica nos sinais não respeitamos mais ninguém, sem a luz dos postes a iluminar os olhares alheios, roubamos, matamos, estupramos, enfim, nos sentimos "livres" a medida que estamos fora da luz da censura, da polícia, da moral. Assim a escuridão nos mostra quem somos !

Um simples cabo que localiza-se na ponte que liga o continente à ilha, sem ele voltamos ao estado da animalidade (se é que os animais vivem segundo o princípio egoístico, ou então, considerando que algum dia deixamos de ser bichos). Comida estragando nos supermercados, lojas fechadas, polícia montada andando pela rua, impossibilidade do abastecimento de água, os ônibus têm dificuldade de se locomover, considerando que são abastecidos por bombas eletrônicas e as novas catracas eletrônicas deixaram os ônibus dependentes da recarga das baterias das tais catracas, e já que todos foram aconselhados a comprar cartões eletrônicos para fazer a tal integração, hoje nos vemos presos ao cartão, já que o dinheiro do ônibus foi todo gasto com a carga ou recarga desse maldito cartão!

Esperávamos que esse mundo das trevas que instaurou-se nessa pequena cidade fosse durar por apenas algumas 18 horas ou no máximo 24, mas já vejo os noticiários que os colégios suspendem as aulas de sexta feira também e foi decretado ponto facultativo também sexta, nossa, como viveremos, será que alguém preveu isso? Nostradamus, será? A mãe diná? As estrelas já indicavam algo? Não, puro acaso idiota que nos lembrou que somos humanos, animais e idiotas e que sem um cabinho que nos forneça nossa "luz moral" não sabemos viver entre nós, talvez nem conosco mesmos. Por favor alguém nos vigie, não podemos viver nessa anarquia, essa foi a primeira coisa que eu pensei quando estava andando naquele túnel enorme, que era pra supostamente melhorar o acesso, ou fazer com que as pessoas chegassem com maior rapidez ao sul dessa ilha.

Estava eu no meu ônibus voltando da universidade, quando chegamos a um certo ponto que havia muito trafego, pois as sinaleiras não estavam funcionando e alguém deve ter batido, ou se matado, foi então que desci do ônibus e resolvi caminhar por dentro do túnel enorme, sem luz, sem ventiladores gigantes para tirar o gás carbônico (produzido pelos carros) de dentro dele, tudo bem, um dos túneis foi desativado no momento, pois alguns motoristas começaram a sentir-se mal pelo gás carbônico ingerido e acabaram parando os seus carrinhos dentro do túnel, e tinham que desligar seus motores, a menos que não quisessem morrer dentro dele; com isso um túnel acabou desativado, foi nesse que eu passei, com um certo grupinho, pois as pessoas que saiam do túnel na direção contrária a minha, previniam: "cuidado, estão roubando do outro lado"; "os garotos estão passando a mão, cuidado meninas, esperem pra andar em grupinhos"; eu achava tudo isso divertido e pensava: "como os anarquistas podem ter tanta confiança na natureza boa do ser humano, de onde eles tiraram isso?"; tudo bem, não tenho como provar a má natureza humana, mas sob a lógica do capital, o chamado darwinismo social impera e com ele a idéia do egoísmo radical, nesses momentos se mostra com maior "clareza".

Heidegger já dizia que a técnica determina a vida dos seres humanos e que produzir a técnica sem pensar nos efeitos contrários que ela pode trazer aos seres humanos, pode ser perigoso, essa determinação por parte da técnica da vida dos seres humanos, ele criticava essa maneira de produzir sem pensar as consequências disso na forma inversa, na sua filosofia da técnica. Como ninguém dá bola para os filósofos, que aliás não servem pra nada, os heideggerianos (pessoas que prestam tributo a pessoa de Heidegger, por meio de artigos publicados pelo cnpq ou outras entidades "filantrópicas) devem estar "tinindo", rindo-se atoa, e dizendo: "arrá, eu avisei vocês, mas não adianta, vocês não me ouviram, agora aguentem", até eu estou sorrindo, encontrei uma utilidade para filosofia, Bentham, o filósofo utilitarista, bem dizia: "ao negar o princípio da utilidade você o está sempre afirmando", - desgraçado, mas um dia refutarei-o.

E as empresas, e a produção, meu deus, é o caos, o centro tecnológico parou, "o que será que será?", tudo bem, Florianópolis não é tão importante assim no cenário econômico, talvez o turismo de vez enquando se mostre um pouco expressivo, talvez ter acontecido tal tragédia não seja bom para o marketing "pessoal" da cidade e com isso veremos menos paulistas, cariocas e gaúchos vindo pra cá. Acredito que esse ocorrido proporcionará muita produção de artigos com o título "eu avisei", eu mesmo que não tenho um tema pro meu trabalho de conclusão de curso, já fico instigado a "produzir" algo.

De qualquer forma é estranho ver pela televisão a metade da ponte sem luz, ver de um lado a claridade, a vida acontecendo, e de outro as trevas, a total dependência, o sentimento de atraso, "meu deus, como viviam esses animais a séculos atrás", bom esse seria um belo momento para se refletir a história, as escolas poderiam se aproveitar disso, os marxistas ou marxianos poderiam também fazer algum tipo de crítica a automatização de tudo, da vida principalmente, o mais interessante é ver o fato ocorrendo e pensar que isso se tornará história, poderia ser fonte de tantas reflexões interessantes, que na filosofia se fazem frequentemente, mas não será assim, agradaceremos ao deus eletrônico por nos devolver a luz elétrica e reestabelecer a paz e a ordem automotivas.

Nós somos burros, irracionais, egoístas, monstros, animais que nos movemos pelo instinto, por isso criamos a energia elétrica e a partir dela: robôs, mecanismos eletrônicos que não dependam de nós para funcionar, ou seja, instrumentos que não se movam pelas paixões, sentimentos e sim por meros procedimentos lógicos, algorítimicos, controlando-nos e causando em nós o sentimento de paz e tranquilidade, mostrando para nós como é bom ser uma máquina frente a animalidade dos humanos. Nesse sentindo o nosso amigo Bentham está com total razão quando fala de como o cálculo de prazeres produz a maior felicidade (não vou entrar nisso, é só porque estou lendo isso) - mas ele diz que para uma sociedade ser feliz (ter prazer, realizar seus interesses - ele iguala os conceitos de felicidade, prazer e interesse, entre outros) basta que calculem, tendo em vista a felicidade de todos e assim cada um aceite renunciar a sua felicidade individual e com isso alcançar uma maior felicidade. Podemos fazer uma analogia no caso das trevas florianopolitanas dizendo o seguinte: como queremos ser felizes e vemos que se depender de nós mesmos e de nossas paixões nunca teremos o máximo de felicidade, então aceitamos renunciar a nossa maneira de nos relacionar com as coisas e com as pessoas por forma de sentimentos, visões de mundo diferentes, liberdade e etc; em nome de procedimentos mecânicos que nos igualem e tratem a todos da mesma forma em todas as situações, fazendo assim a nossa sociedade mais feliz, sem respeitar o tal do princípio do serviço social que diz que: "cada caso é um caso"; mas com isso propiciando maior eficiência na busca pela felicidade (não no sentido aristótelico, por favor).


Acho importante pensar sobre tudo isso, remete-me a maneira simples como estão organizadas as coisas, e a formal sutil que pode nos tirar o sentimento de ordem, tranquilidade e paz, deixando-nos com a sensação de caos, anti-progresso, entre muitos outros adjetivos. Isso me leva cada vez mais a desconfiar dessa tal mecanização da vida, ou da maneira como dizemos amém a técnica e comungamos todos da idéia de que sem inglês e informática não se vive na sociedade de hoje, sem questionar-mo-nos como isso nos afeta no dia-a-dia, na nossa maneira de pensar o mundo, as relações, a própria vida; vamos simplesmente vivendo de uma forma que não pensamos nas consequências de um ato (não quero cair no cálculo utilitarista) produz devolta em nós mesmos, talvez não seja inutilidade pensar nessas coisas (refletir com seriedade), talvez para que possamos ter uma vida mais consciente e sejamos um pouco mais críticos quanto a certos ideias propostos seja pela administração, seja pela técnica, seja por modelos econômicos bem-sucedidos, nesses momentos de "escuridão" talvez surja uma "luz" filosófica a inspirar uma possível reflexão que nos leve a uma postura diferente (espero que leiam o post anterior).

quarta-feira, outubro 29, 2003

A filosofia e talvez a educação, relativo a proposta de reforma curricular.

A filosofia e talvez a educação, relativo a proposta de reforma curricular.

Vou começar o texto com os chavões que se ouve nas palestras e entre os alunos do curso de filosofia: Vocês tem que entender que pro curso de matemática, física, química, biologia, e outros é auto-evidente a sua utilidade prática (lógico, quem é que não aplica o logaritimo no seu dia-a-dia, ou então, limite e derivada, classificaçao de polimeros - realmente, estou convencido). Já a filosofia não, ninguém nem sabe o que ela é, então quando os adolescentes deparam-se com ela ao chegar no ensino médio a vêem como algo estranho, uma viagem sem sentido, outros esforçam-se pra encontrar uma utilidade prática(reflexão existencial, algo que dê sentido pra vida, ou para o que fazem, buscar fundamento, auto-ajuda, religião sem deus, etc), outros ainda procuram ver o mercado como está para essa tal filosofia e como são vistos na sociedade os então "filósofos".

Outra dificuldade da filosofia em ter espaço ao discurso - já isso diz respeito a todos os outros cursos que são dados no ensino fundamental e médio; é o seguinte, na universidade os alunos tem um pouco mais de abertura para o discurso de: matemática, física, filosofia, história; porque pressupõe-se que muitos deles vão fazer o curso porque tem um certo interesse, mesmo que mínimo, mas já maior que o total desinteresse dos alunos do ensino fundamental e médio em aprender. No ensino fundamental e médio a educação, o aprender, está mais ligado com a aceitação social (dos colegas, ser bem visto pelos professores, pelos pais) e não propriamente com o ato de se situar no mundo (note-se nos meus discursos o quanto falo disso).

Depois dessa breve introdução de obviedades quero falar sobre essa reforma curricular, a saber, todos os cursos (exclusivamente as licenciaturas) a partir de 2005 devem implementar um novo curriculo que contemple 800 horas de disciplinas pedagógicas. Tendo em vista que atualmente o prática do ensino de filosofia é rídicula, são meia dúzia de aulas ministradas no colégio aplicação (dentro da UFSC) e um relatório a ser entregue. São 5 disciplinas no total de pedagógicas atualmente, já o novo currículo pretende 400 horas de estágio (nossa), contra 72 horas de atualmente. Não quero me ater a dados técnicos, mesmo porque não quero ser chato.

Não tenho problemas com isso, por considerar a pedagogia extremamente necessária e importante para a se construir realmente um saber (notem como sou construtivista - teoricamente), tenho uma certa dificuldade é com a discussão, pois penso que é impossível fazer uma proposta curricular sem ter em vista qual seria o objetivo da educação (no caso da filosofia só no ensino médio), pois dependendo do objetivo é que podemos pensar na formação dos professores. Ex: se o objetivo da educação for situar o aluno secundarista na história das idéias filósoficas visando uma maior compreensão das suas próprias idéias dentro do contexto do todo das idéias, então o objetivo seria o de motivar o aluno nesse ato de se compreender ligado a toda a história, a ver-se na história, a pensar com mais delicadeza em questões como "pensamento próprio", a pensar na relação sociedade, história e indivíduos.

Se o objetivo da escola é discutir questões éticas, que só se fala nisso atualmente, a filosofia nesse sentido não tem muito a contribuir, a não ser questionar as formulaçoes éticas, problematizar as bases, propostas temos a dos pensadores: Kant, Nietzsche, Aristóteles, ..., mas é mais uma fé do que propriamente uma formulação teórica que DEVE ser aceita universalmente tendo em vista a força dos seus argumentos. O que a escola faz é não dar bola pros objetivos, quais os objetivos, qual o modelo de ser humano que se visa ao educar um aluno, o que se está querendo com isso, o que o projeto político pedagógico recomenda.

Cursos como história, geografia, biologia, são ótimos pra situar o aluno na história, bom os cursos como matemática, física, química, esses cursos eram pra ser dados no enfoque histórico, porque é interessante ver os logaritimos, as matrizes, o calculo vetorial, não estou aqui dizendo que isso seja menos ou mais importante (o que se faz é qualificar um saber frente a outro dado a sua utilidade prática), o que estou querendo dizer é que, segundo meu modo de ver, o ensino fundamental e médio tem a obrigação de situar o aluno na história do mundo, seja das idéias e fórmulas matemáticas, físicas, seja das idéias filosóficas, históricas, tudo isso faz com que as crianças e os adolescentes sintam-se pertencidos ao grupos dos seres humanos, brasileiros, latino-americanos, esse sentimento de pertença liga-se diretamente a uma cidadania concreta e madura, liga-se também com um sentimento de valorização do conhecimento, isso eu considero fantástico e isso é o que ME motiva a estudar e a querer aprender.

Eu sinto como é díficil aprender, por exemplo, na filosofia o pensamento contemporâneo, a lógica moderna, isso é tudo muito difícil, sem um contexto histórico bem construido as coisas parecem não ter muito sentido, fica tudo flutuando no mundo das idéias da minha cabeça e acabo nunca construindo realmente um saber, ou seja, pensando no saber como o fruto do conhecimento de um povo, de uma nação, isso tem uma fundamental importância para a construção de uma identidade nacional a partir da escola, e também eu vejo isso como uma tarefa que dá uma motivação as crianças, poxa estar conhecendo a própria história, se situar, entender o contexto que me envolve, imagina que interessante uma educação que privilegie isso. Gostaria de que outros professores (José, por exemplo) pudessem opinar, eu gostaria de discutir isso.

sábado, outubro 11, 2003

A filosofia por aí...

Imaginemos porque a filosofia é tão bem vista nos âmbitos academicos, tanto é assim que as verbas pra ela cada vez mais vão se esgotando, ao menos no Brazil, terra de filósofos, tudo bem temos o doutor Newton da Costa com a sua lógica paraconsistente que 99% das pessoas nunca ouviu falar, ou então o professor Oswaldo Porchat, cético brasileiro, que outros 99% dos brasileiros nunca ouviram falar. Bom primeiramente é estranho de falar de filosofia no brazil já que o país tem uma péssima noção de história, portanto não faz nem idéia das repercussoes das idéias filosoficas em ambito mundial, a filosofia atualmente serve como reflexão sobre a moral, aliás nem isso, caiu a disciplina de religião em muitos colégios, então achou-se mais bonito falar que a filosofia dada no segundo grau é a ética, discute-se assuntos como: "aborto, eutanásia, violência, sexo, preconceito", sendo que a filosofia não tem respostas pra isso, se tem é uma, mas são tantos os filósofos que ficaria dificil basear neles os princípios que a sociedade deseja.

Nas universidades a matéria filosofia em outros cursos é uma idiotice só, esses dias perguntava eu a minha mãe por que ter filosofia no curso de serviço social, ela disse que era importante, então perguntei a ela por que aprender Tales de Mileto poderia ser importante no curso de serviço social, e ela começou a rir e disse que talvez a alegoria da caverna de Platão fosse importante, porque afinal as pessoas estavam lá acorrentadas, alienadas e não conseguiam ver o sol, quando de repente uma delas saiu, contemplou o sol e voltou para falar da Verdade aos outros, bom acho que Platão não queria ser o antecessor de Karl Marx, mesmo porque Platão odiava a democracia, detestava o consenso, tanto que ele recomendava o que o rei fosse o filósofo.

Em psicologia tem também essa cadeira de filosofia, na administração, na medicina, até lá, na física, na agronomia por incrivel que pareça, na história, na contabilidade (meu deus), no direito, de todos esses cursos em alguns a filosofia dada é interessante, como no direito, a filosofia do direito, refletir filosoficamente a respeito da lei, suas implicações, um pouco de interpretação, na agronomia é mais uma filosofia da ciencia, o que é ciencia, o que seria objetividade cientifica, isso existe? não ? por que? Paradigmas da ciência classica, moderna, contemporanea, em historia, filosofia da historia, epistemologia das ciencias humanas, em que sentido a historia é ciencia, por que? Na medicina discute-se um pouco de ética, bioética, sei lá se com muita profundidade filosofica. Na psicologia é uma palhaçada sem sentido, estuda-se alguns livros introdutórios de filosofia onde não pega-se noção geral alguma de um possível método filosofico, deveria ter filosofia da mente, epistemologia das ciencias da vida, a critica da filosofia a psicanalise, comentarios sobre a psicologia existencial, as bases fenomenologicas da gestalt, a critica ao dualismo, muita coisa teria por trabalhar, mas ao invés disso prefere-se ficar brincando. Na administração é a mesma palahçada, ao invés de criticar os modelos fordistas e tayloristas, ao invés de se aprofundar numa critica ou comentário sobre a ciência administrativa, se apresenta "bobagens", introduções tolas.

Penso que a noção da história falta a muitos, inclusive a mim, sobre a repercussão das discussoes filosoficas no contexto da historia do mundo. Só de ver o simples detalhe de porque a religião não dá mais conta de explicar o mundo, e porque isso mudou para a ciência, e como Kant introduziu um ceticismo com relação as proprias explicações filosoficas, (desgraçado), a crença na ciencia (sendo que ela não explica nada apenas descreve) vive-se em muita parte uma moral situacionista, ou seja, dependendo da situação me posiciono de um jeito ou de outro, visando sempre as consequências (o que Kant reprovaria) do que a própria ação em si. É interessante ver Descartes tentar explicar a geografia do mundo a partir do dilúvio e de como isso realmente tenta explicar o mundo, hoje em dia a religião dá apenas seu ponto de vista moral sobre o mundo, o que ninguém gosta, pois é muito rígido pros tempos atuais, onde todos são tolerantes. Acho que é importante ver também como os filósofos tomam as descrições científicas, tomam no sentido de verem suas implicações, as consequencias de adotar um tal modelo de explicação, por exemplo na renascença onde tirou-se o centro do universo da terra para se colocar no sol, que implicações teve isso, a filosofia responde, mas quem quer saber?

A filosofia está meio jogada por ai, sem ter o que fazer, atualmente se vê a filosofia atrelada a ciência, são os filósofos da ciência, mas qualquer cientista respeitado faz filosofia da sua ciência, ou seja, se pergunta sobre os fundamentos últimos da sua pesquisa. No direito talvez se discuta bastante, na ética que atualmente anda discutindo bastante as questões de fundamento, onde fundamentar uma ética, esse é um grande problema atualmente, diversos filósofos dão respostas, não sei como anda a filosofia da lógica, eu sei da lógica paraconsistente do professor Newton da Costa, "sei", ouvi falar. Talvez a filosofia da história junto com a filosofia da política possam ajudar a fazer algum tipo de análise do contexto político atual, isso quem disse foi um professor das ciências sociais, coordenador de um doutorado interdisciplinar. Tem essa tal de semiótica por ai, teoria dos objetos, as relações de percepção, quer dizer, como um sujeito ao falar o mundo por meio de signos faz-se entender a um ouvinte, filosofia da linguagem. As implicações da mecânica quantica para a ética, segundo um professor da filosofia é o que irá revolucionar, e segundo ele o filósofo Steven French é o cara mais quente que há.

Estou perdido entre o tal do direito, a política, a ética e a educação, áreas que mais me chamam a atenção, poxa eu adorava os algoritmos da lógica, talvez um dia eu volte a gostar deles de novo, quando entender o tal do Frege ou o Quine, até lá tenho muito pra ruminar.